Tango II
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A dança é uma forma de expressão que surge da necessidade profunda de comunicar com o corpo aquilo que aspalavras não conseguem expressar. Neste contexto, o tango atinge uma expressão única na dança a dois: os corposaproximam-se numa intimidade maior do que qualquer outro tipo de dança, enquanto as pernas se movem com uma velocidade e destreza incomparáveis. A identidade do tango está na combinação de sensualidade, relaxamento eintimidade da parte superior do corpo que contrasta com a dança quase marcial executada pelas pernas, que simboliza oabandono e a resistência do estado de paixão amorosa. A música tem uma expressão sublime e vibrante que abordadiferentes sentimentos, que vão desde o êxtase, a paixão e a conquista até à melancolia e o lamento. O tango é aprópria vida em forma de arte, vivida de uma forma complexa e profunda.

As origens do tango argentino estão rodeadas de alguma controvérsia. No entanto, existe algum consenso que permiteafirmar que os primeiros passos do tango foram dançados nas ruas, nos bares e nos bordéis de Buenos Aires, nosprincípios do século XIX. Um dos significados mais antigos de tango é o de "um lugar onde pessoas de cor negra seencontram para dançar", o que dá conta das origens étnicas desta dança. Os ritmos trazidos para Buenos Aires, primeiropelos escravos africanos como o cadombe, e mais tarde pelos negros cubanos, como a habanera, misturaram-se com ossons da polka e da mazurka levados pelos emigrantes europeus, resultando naquela altura na milonga, que é um termoque hoje designa tanto uma espécie de tango como uma dança de salão. O tango nasceu assim nos bordéis ao som debandas improvisadas com guitarras, violino e flauta. Mais tarde foi introduzido o bandoneón, uma versão maior doacordeão trazida pelos primeiros emigrantes alemães, que se tornou o instrumento principal que caracteriza o som dotango.

No início do século XX, os filhos das famílias abastadas aprenderam a dançar o tango nos bordéis dos barrios de BuenosAires e introduziram-no no estrangeiro no seio da melhor sociedade europeia e americana, o que causou escândalo em1913, mas que depressa se espalhou, como uma espécie de epidemia febril por todo o Mundo. Na cidade de Buenos Airesdos anos 20, músicos de formação clássica como Júlio de Caro, que formou um dos primeiros sextetos, levaram o tangopara formas de expressão mais subtis e complexas, enquanto que o tango canción começou a desenhar-se como umaforma de subcultura. Carlos Gardel, o maior de todos os cantores de tango, tornou-se o símbolo da própria canção,adorado por todo o povo. Os anos 30 foram palco das grandes bandas que adaptaram a orquestra aos sons do tango,como foi o caso de Juan D'Arienzo e Aníbal Troilo. Nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial o tango sofreu com asvicissitudes das várias crises políticas e com o isolamento do governo peronista, marcado pela prisão de muitos músicospela sua oposição ao poder. Nos anos 60 e 70, o tango conseguiu sobreviver à ditadura militar, que impedia reuniões demais de três pessoas, e ao rock n` roll, que se sobrepôs a qualquer outra música popular. Nos anos 80, o tango subiuaos palcos, numa versão teatralizada, pela influência de grandes professores como António Todaro e Pepito Avellaneda.Mais recentemente, surgiu o debate sobre o que é o tango verdadeiro, sobretudo com o surgimento do tango modernointerpretado por Astor Piazolla. O tango é uma forma de arte viva que tem Buenos Aires como o epicentro de umfenómeno que não perdeu o seu carácter popular e o seu objetivo visceral da união mística de dois corpos que dançamnum só.

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